Mutável Matéria

por Talitha Motter [1]

 

Merleau-Ponty, certa vez, afirmou que “é oferecendo seu corpo ao mundo que o pintor transforma o mundo em pintura”[1]. E é justamente por meio de seu corpo que Carolina Marostica vivencia o entorno e o refaz em trabalhos, através de substâncias recolhidas no seu transitar cotidiano. Ao invés de trazer uma representação do visível para a pintura, desenvolve suas obras como matéria formante do mundo. Nas telas e instalações (que também fulguram como pintura), esses materiais, como a tinta a óleo, o silicone ou a pelúcia, que partilham a característica de serem informes, maleáveis e de fácil resposta ao gesto da artista, geram movimentos de expansão, de trocas e de acomodação. Eles trazem à tona as forças que interagem na natureza para moldarem nossos corpos. Tais estruturas aludem à instabilidade, à transitoriedade que se esconde sob a visão superficial da pele que reveste os seres.

Nesse percurso expositivo, somos deslocados para uma situação de maravilhamento e descoberta. Distanciando-nos do embotamento da sensibilidade, observando as gradações de espessuras dos materiais, a maneira como há regiões que se adensam para após se diluírem, notamos a carne que se contorce. Das experiências primeiras, da percepção inicial das coisas, quando ainda não se estabeleceram filtros do que é adequado ou não, surge essa matéria que se apresenta plena de luz. Rasgam-se, em nossos olhos, verdes e rosas fluorescentes. E ali essas cores brincam, numa mistura que não tem receio do poder das cores. Como afirma a artista, nessa esfera do que é primeiro, “os contrários se diluem”[2]. Colocar-se na situação de desequilíbrio, deixar a matéria agir, os elementos deslocarem-se, numa relação mais livre com o corpo-matéria, faz parte do processo de Marostica.

 

[1] É mestre na linha de História e Crítica de Arte pelo PPGAV/UFRJ, coeditora da revista Arte ConTexto e curadora da plataforma Aura.

[2] MERLEAU-PONTY, Maurice. O olho e o espírito. São Paulo: Cosac & Naify, 2004, p.16.

[3] MAROSTICA, Carolina. Entrevista. Porto Alegre, 21 jul. 2015. Entrevista concedida à autora.